quinta-feira, 20 de maio de 2010

Trecho da primeira parte do mundo como vontade de representação [Schopenhauer]

Tal como, em meio ao mar enfurecido que, ilimitado em todos os quadrantes, ergue e afunda vagalhoes bramantes, um barqueira está sentado em seu bote confiando na frágil embarcação; da mesma maneira em meio a um mundo de tormentos, o homem individual permanece calmamente sentado, apoiado e confiante no príncipio individuationes[príncipio de individuação].
(...)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Luís Antônio Giron

Teatro brasileiro? Tô fora!...
Por que os palcos brasileiros se converteram em formigueiros de banalidades e fracassos

Eu sempre abominei este tipo de expressão: “Me inclua fora dos palcos do Brasil”. Ou: “Teatro brasileiro? Tô fora!...” Mas agora esse tipo de manifestação já me parece menos preconceituosa que a constatação da deprimente realidade: o teatro feito no Brasil está péssimo e seus maiores encenadores, em agonia.

Muitas pessoas inteligentes chegaram à mesma conclusão, o que não me faz sentir tão fora da realidade assim. Sei que as artes cenicas contam com fanáticos incondicionais, capazes de seguir seus deuses mascarados como hoje seguimos as celebridades no twitter. Entendo a obsessão. Mas não perdoo a tolerância à mediocridade que hoje vigora entre o público, a crítica e os elencos brasileiros. Parece que todo mundo combinou que não vai denunciar as fragilidades, as bobagens, a falta de critério, a burrice das encenações e a miséria da dramaturgia. “Vamos fingir que está tudo bem que ninguém fora daqui vai notar mesmo”, dizem os envolvidos. E assim proliferam os canastrões, as peças ridículas metidas a alternativas, as montagens oportunistas que usam elencos de televisão para vender ingressos e sobretudo as peças sem drama, sem humor, sem nada mais que um alcolchoado de chavões para servir em rituais de uma religião morta que teima em sobreviver de aparências. Eis o teatro brasileiro: uma barca furada, um rito sem sentido, uma diversão inócua e domesticada.

No fim do ano passado, o diretor Gerald Thomas saltou da arca porque já não suportava suas últimas montagens, ocas e desprovidas de fundamento. Ele desistiu do teatro – por algum tempo, felizmente para uns, infelizmente para outros – porque já não aguentava ver suas bobagens no palco.

Outro diretor agonizante é José Celso Martinez Corrêa. Em sua últimas peças , ele abandonou as utopias para abraçar a barbárie e a tecnologia, o culto à máquina e à transgressão. Hoje seus espetáculos podem ser acessados e ignorados pela internet.

Epígonos de Zé Celso, os saltimbancos do Teatro da Vertigem fizeram da cenografia a essência de sua dramaturgia desossada. Quem viu Kastelo no início do ano em São Paulo sabe do que estou falando: é mais uma das criações “livres” da trupe - e, portanto, descompromissadas com a coerência em relação às fontes nas quais costumam se basear, ou às quais costumam piratear. O Teatro da Vertigem usou o nome de Franz Kafka para apresentar uma chanchada com ares de seriedade.

Então o que dizer do grupo Tapa de Eduardo Tolentino? Talvez seja dos males o menor, mas se tornou uma espécie de Comédie Française, de companhia de repertório com jeito de pública mas sem verbas públicas, fazendo um teatro domeseticado e muitas vezes repugnante pelos lugares-comuns.

E assim vemos o grupo Galpão, o Enrique Diaz e o Aderbal-Freire-Filho na mesma sarjeta de ideias. Eles repetem em coro fórmulas e citando autores mortos para tirar deles alguma inspiração em meio ao niiilismo e à ausência de tutano, para não falar critérios. Nem mesmo o Cacá Rosset parece invulnerável à praga da fórmula repetida, por perdida... Onde anda Cacá? Calou-se como Gerald?Não vou descer aos alternativos da Praça Roosevelt em São Paulo, que sugam o mel do submundo do saudoso Plínio Marcos, vendendo o gato de suas peças como se fosse lebre transgressiva. Chega de tanta palhaçada! Será que eu tenho de romper o pacto de hipcrisia e bancar o menino que aponta que o rei está nu? Acho um papel ridículo e de todo modo surrado. Vou cochichar para você, leitor, como as coisas estão ruins.Quando a indigência mental atinge os grandes mestres do teatro brasileiro, aí então a situação parece mais grave. O Antunes Filho é este caso radical da última instância da miséria intelectual a que chegamos. Recentemente fui assistir ao Policarpo Quaresma, em cartaz no teatro Sesc Consolação em São Paulo. E mais uma vez minha opinião foi corroborada.

O major Policarpo Quaresma é o protagonista do romance de Lima Barreto publicado em 1911. Ele simboliza o ideal nacionalista ingênuo triturado pela corrupção política, a agricultura atrasada e pela cultura local intelectualmente inferior. Depois de levantar libelos verde-amarelos e sair em busca da essência do Brasil, o herói se vê diante do vazio, presa da descrença total. Em uma cena da versão do diretor paulistano Antunes Filho, Policarpo Quaresma (interpretado pelo ator Lee Thalor) aparece a pisar ruidosamente nas madeiras do palco, como a matar as saúvas, ao ritmo do Hino Nacional Brasileiro, que toca no fundo. A cena pode soar ultrajante – e soaria ainda mais caso Antunes e seu Centro de Pesquisa Teatrais (CPT) ainda lidasse com a censura dos militares que quase mataram a cultura brasileira entre 1964 e 1985. Seu Policaro Quaresma denuncia a tortura e a desonestidade do exército brasileiro, o descaso com a população pobre, o desprezo ao pobre folclore local. A montagem teria sido explosiva em 1968, pois a transposição do jacobinismo do Marechal Floriano, aniquilando em 1894 a Revolta da Armada e impondo o estado de sítio no Brasil, bem poderia ter servido como metáfora do Ato Institucional número 8 de 13 de dezembro de 1968, que abolia as liberdades civis em território brasileiro. Os militantes do Comando de Caça aos Comunistas teriam arrasado o teatro, como fizeram com Roda-Viva, montagem de Zé Celso, no teatro Ruth Escobar naquele ano. Mas não estamos em 1968. Em 2010, tudo isso parece fora dos nossos tempos de democracia e exaltação à pujança do Brasil de FHC e Lula. A crítica parece perder o sentido.

Minha primeira impressão foi que Antunes aproveitou um texto guardado na gaveta e soprou soprar o pó dele a fim de comemorar seus veneráveis 80 anos – e os 32 anos de seu grupo teatral, primeiramente uma cooperativa batizada de Macunaíma e, a partir de 1998, intitulado CPT, com verbas do Serviço Social do Comércio (SESC). Escreve Antunes Filho sobre a encenação: “Podemos, se quisermos, classificar as alienações em toleráveis e intoleráveis: há momentos na história em que elas se entrecruzam provocando tragédias irreparáveis por (ou apesar de) terem sido baseados em atos risíveis de opereta de segunda categoria, onde as bravuras não foram senão bravatas”. A farsa no palco seria então a denúncia de uma alienação. Por mais que o termo “alienação” pareça ultrapassado, vamos conceder ao encenador o direito de usá-lo. Isso vale também para o uso que faz da farsa, da “opereta”, como veículo de crítica, à maneira de Bertolt Brecht, Dario Fò e Heiner Müller, respectivametne nos anos 30, 70 e 80. É o bom, velho e desgastado efeito do distanciamento crítico, que mais uma vez Antunes usa para criar uma alegoria política e social. Vamos também reconhecer que a montagem obteve um coro uníssono de resenhas positivas. O Caderno 2 de O Estado de São Paulo de sexta-feira, 9 de abril, dedicou uma página dupla para os mais proeminentes críticos do jornal para elogiar a peça com palavras grandiloquentes. Diante de tudo isso, eu devo ser o pior e último crítico a me manifestar. A montagem, na minha opinião, é ruim, estereotipada, quase escolar no seu vaivém de grupos alegóricos; é tediosa a sucessão de discursos panfletários; os diálogos são artificiais e os atores, muito jovens para o papel de venerandas autoridades. O resultado parece uma brincadeira de criança ou, no máximo, uma montagem de teatro universitário como aqueles do Teatro de Arena e dos CPCs dos anos 60 e 70. Pula daqui, pula dali, desfila acolá, tumulto e gritaria todo o tempo, tudo me lembrou o que de pior o teatro engajado brasileiro jamais produziu. Só que teatro engajado sem engajamento, sem público engajado, sem as condições para sua existência e propagação. O resultado é maneirista... e nulo.

Quero fazer uma observação. Sou admirador e amigo de todos esses grandes diretores, de Gerald a Antunes, de Zé Celso a Cacá e Tolentino. Acompanho suas trajetórias há muitas décadas. Em outros tempos, eles me influenciaram e me fizeram me dedicar aos estudos da dramaturgia, a concluir um Doutorado em Artes Cênicas na USP sobre o engajamento teatral do poeta Gonçalves Dias na crítica e no palco, veja só. Mas agora o que acontece com todos eles? Perderam a mão, vivem de glórias passadas, deitaram nos louros, desistiram por esgotamento de inspiração ou recursos? Talvez seja uma fase, como se diz em futebol. Mas a verdade é que o tal pacto de silêncio pode ser rompido a qualquer momento. O público pode desistir e trocar o alto teatro pelos musicais da Broadway e as operetas que enxameiam as zonas teatrais de São Paulo e Rio de Janeiro. E volto ao Antunes, o grande pilar do teatro intelectual do Brasil. Se até ele, como Policarpo Quaresma, parece ter adbicado de seu amor pelo Brasil e pelo teatro, então estamos todos mortos por dentro. Por isso, por enquanto, me incluam fora dos formigueiros de banalidade em que se transformaram os palcos.

sábado, 8 de maio de 2010

experimentar a verdade sobre nós mesmos

Declaração de Princípios

extraido de http://pt.wikipedia.org/wiki/Jerzy_Grotowski

(editado do texto escrito por Jerzy Grotowski para uso interno no Teatro Laboratório e, em particular, pelos atores que faziam um aprendizado, antes de serem aceitos na companhia, a fim de colocá-los em contato com os princípios básicos do trabalho ali realizado).

O ritmo de vida na civilização moderna se caracteriza pela tensão, por um sentimento de condenação, pelo desejo de esconder nossas motivações pessoais, e por uma adoção da variedade de papéis e máscaras da vida (máscaras diferentes para a nossa família, o trabalho, entre amigos, na comunidade, etc.). Gostamos de ser “científicos”, querendo dizer com isto racionais e cerebrais, uma vez que esta atitude é ditada pelo curso da civilização. Mas também queremos pagar um tributo ao nosso lado biológico, o que poderíamos chamar de prazeres fisiológicos. Portanto, fazemos um jogo duplo de intelecto e instinto, pensamento e emoção; tentamos dividir-nos artificialmente em corpo e alma. Quando tentamos nos livrar disto tudo, começamos a gritar e a bater com o pé, no convulsionando com o ritmo da música. Em nossa busca por liberação, atingimos o caos biológico. Sofremos mais com uma falta de totalidade, atirando-nos, dissipando-nos. (…)
Porque sacrificamos tanta energia à nossa arte? Não é para ensinar aos outros, mas para aprender com eles o que nossa existência, nosso organismo, nossa experiência pessoal e ainda não treinada tem para nos ensinar; para aprender a romper os limites que nis aprisionam e a libertar-nos das cadeias que nos puxam para trás, da mentiras sobre nós mesmos que manufaturamos cotidianamente para nós e para os outros; para as limitações causadas pela nossa ignorância e falta de coragem; em resumo, para encher o vazio em nós, para nos realizarmos. A arte não é um estado da alma (no sentido de algum momento extraordinário e imprevisível de inspiração), nem um estado do homem (no sentido de uma profissão ou função social). A arte é um amadurecimento, uma evolução, uma ascensão que nos torna capazes de emergir da escuridão para a luz.
O devemos fazer é lutar, para então descobrir, experimentar a verdade sobre nós mesmos; rasgar as máscaras atrás das quais nos escondemos diariamente. (…) A arte não pode ser limitada pelas leis da moralidade comum ou de qualquer catecismo. (…) O ato de criação nada tem a ver com o conforto externo ou com a civilidade humana convencional; quer dizer, as condições de trabalho nas quais as pessoas se sentem seguras e felizes.